quinta-feira, 22 de setembro de 2011


PRINCÍPIOS PARA UMA ADORAÇÃO BÍBLICA
Texto extraido do artigo "As influências do culto do Antigo Testamento na liturgia" de Gerard Van Groningen*.



1. Adoração.

O culto deve ser centralizado em Deus. Isso não foi mudado no Novo Testamento. A adoração deve ser prestada a Deus, Ele reivindica e espera isso de Seu povo. Cultuar, portanto, é um ato de obediência, é trabalhar para Deus, é serviço. Essa é a razão pela qual podemos falar do serviço de culto, e não da reunião de culto; a menos que você esteja enfatizando o encontro do povo com Deus. Adorar a Deus por causa de Deus significa que honramos o Seu caráter. Ele é espiritual, e por isso Jesus disse que devemos adorá-Lo em espírito. Também por isso a ordem para não fazer ídolos ou qualquer representação física de Deus. Isaías ficou impressionado quando estava no templo e viu a Deus, pois Deus é Santo, separado do que é material, puro; e, como espiritual que é, Ele não está limitado a experiências humanas. As experiências não podem determinar ou governar o tipo de liturgia. Se limitarmos o culto às nossas idéias, estaremos limitando o Deus infinito. Na medida em que viajo por diferentes países do mundo, tenho sofrido pela falta do entendimento do que é a santidade de Deus, e pela falta do verdadeiro culto a Ele. Querem trazer Deus ao nível deles, ao invés de elevarem-se ao nível santo de Deus. Deus não é apenas santo, Ele é também majestoso. Os Salmo 93 diz que Ele está revestido de majestade, Deus é glorioso, é sublime, é lindo. Devemos adorá-Lo no Seu esplendor e na Sua beleza. Se mantivermos a nossa adoração nesse contexto próprio de beleza, majestade, e sublimidade, adoraremos a Deus da forma como Ele deve ser adorado.
O Deus do Antigo e do Novo Testamento é um Deus de amor, bondade, compaixão, e misericórdia. Mas esse Deus compassivo e misericordioso é, ao mesmo tempo, o Governador, o Soberano de todas as coisas. Todos os povos digam: Deus reina! Mas os pregadores, os sacerdotes, devem dizer isso primeiro, conforme Isaías. Na presença do Rei, no Palácio do Rei, os súditos nada são e devem portar-se com humildade e com disposição para servi-Lo. Vocês podem imaginar as pessoas indo ao palácio batendo palma "- Por que você está batendo palma?" "-porque eu gosto." Não, na presença do Altíssimo a nossa atitude não deve ser baseada naquilo que gostamos, mas sim naquilo que Ele requer que façamos. Afinal, quem está sendo cultuado, você ou Deus? Sinto muito se vocês gostam de bater palmas, isso é tão vulgar, diminui a beleza, e o esplendor da glória de Deus. Se o culto é centralizado em Deus, não apenas devemos honrar o caráter de Deus, devemos honrar também a vontade de Deus. Deus tem falado, e nada deve tomar o lugar da Palavra de Deus que está prescrita para nossa adoração. Eu quero repetir: Deus estabeleceu o tempo e o modo do culto, e isso é uma questão de obediência. É da vontade dEle que confessemos os nossos pecados e que compareçamos à Sua presença com um coração quebrantado, os sacrifícios do Antigo Testamento falam disso. Ele nos conclama a relembrar o que éramos e o que hoje somos como pessoas redimidas.

2. A postura do povo na adoração.

Somos portadores da imagem de Deus, e Ele não se esquece disso. Podemos pensar, sentir, falar e cantar; somos mais do que seres materiais físicos, somos espirituais; e é no culto que ocorre o encontro do nosso ser espiritual e Deus.

3. O líder.

No Antigo Testamento o culto devia ser conduzido diretamente por líderes indicados para esse fim (senão leiam de Êxodo 25 a Levítico 10; e Oséias). Os sacerdotes são condenados por não dirigir o povo, e ainda por serem dirigidos pelo povo. O povo de Deus no Antigo Testamento sempre precisou de líderes, o sacerdote tinha que conduzir o povo naqueles festivais, na expiação; então havia o sumo-sacerdote, o sacerdote, e os levitas, cada um com tarefas determinadas, de acordo com a administração superior do sumo-sacerdote. O Antigo Testamento mostra a necessidade da liderança, e estes sacerdotes tinham que se apresentar, conforme era prescrito, com roupas puras e brancas. Se os seus mantos tivessem uma mancha, eles estariam desqualificados para dirigir o povo no culto. Eles tinham que ter os adornos perfeitos. Deviam ser totalmente consagrados, receber um sangue purificador nas pontas dos dedos das mãos e dos pés, e seguir as prescrições de como o culto deveria ser conduzido. Aliás, só havia um modo de conduzir um culto aceitável, o modo prescrito por Deus. Só assim Ele aceitava os sacrifícios do povo através dos sacerdotes. Eles tinham até mesmo que tomar cuidado quanto ao modo como subiam os degraus das escadas que conduziam ao altar, as suas roupas teriam que ser de tal forma que cobrissem todo o seu corpo em todo o tempo. Estou mencionando esses detalhes porque eles estão lá. Na preparação para o culto, eles tinham que privar-se de contaminação com corpos, com cadáveres, com pessoas doentes e de qualquer relacionamento íntimo com a esposa. Em Levíticos, lemos que quando não houvesse uma obediência estrita a essas prescrições eles seriam mortos. Todos os líderes nesta posição deviam se conscientizar desse caráter mediatório da sua função, eles representavam a Deus perante o povo, eles tinham estado na presença de Deus, eles tinham que refletir a santidade, a majestade, e a beleza de Deus; mas eles também compareciam lá representando o povo, eles falavam a Deus em favor do povo. Deus era o Rei; o povo, os servos; e os sacerdotes, os mediadores. Mas não eram mediadores como reis, e sim como alguém do povo que apontado por Deus para representar o povo perante Ele. Eles tinham que elevar o povo até o padrão de Deus, e não trazer Deus aos padrões do povo. Essa era a prescrição do Antigo Testamento.
Às vezes ouço dizer que não estamos na era do Antigo Testamento. Contudo, também no Novo Testamento podemos ler a respeito de pessoas que foram indicadas para liderar, e foram qualificadas por Deus para esse trabalho. O papel do líder não foi renegado no Novo Testamento.

4. A adoração deve expressar a relação pactual estabelecida por Deus entre Ele e o Seu povo.

Ele é o Senhor Soberano cujo amor tem sido demonstrado em atos e palavras. Mas Ele é o Senhor e nós, os servos. Nessa relação, devemos nos tornar a cada dia mais semelhantes a Ele. Eu ouço dizer que, no casamento perfeito, a esposa se torna mais e mais semelhante ao marido, mas isso é um pouco bilateral, porque o marido também deve aprender com a esposa. Agora, o que me conforta é que Deus não Se torna semelhante a nós, mas Ele nos compreende, e quando não fazemos exatamente o que Ele quer, Ele ainda é compassivo e continua a perguntar: "você me ama?" Todos os que O amam fazem a Sua vontade.

5. O quinto princípio da adoração é que há um julgamento pelo pecado e, por isso, o sacrifício deve ser representado.

O pecado tem que ser coberto, a expiação, a propiciação, foi feita por Cristo, em nosso favor. Os sacrifícios do Antigo Testamento apontavam para aquilo que Cristo iria fazer. No Antigo Testamento não havia culto, e nem adoração, sem sacrifícios; não havia culto sem altar. Para nós, não há culto sem o significado da cruz, não há culto sem Jesus Cristo, que foi imolado e agora reina. Israel tinha que repetidamente ouvir as maldições do pacto sobre aqueles que o violavam; ouvia as bênçãos, mas tinha que ouvir as maldições também, para lembrar-se de que havia um caminho da vida mas que havia também um caminho da morte.
Além disso, a adoração devia também incluir ofertas, e os sacrifícios deviam expressar gratidão, devoção, desejo de comunhão e meditação, prontidão, e voluntariedade para compartilhar coisas materiais com os sacerdotes, levitas, os pobres, e as viúvas. Não havia lugar para a mesquinhez no culto.
No Sinai, Deus trouxe o povo a um lugar; no Tabernáculo, Ele trouxe o povo para Si mesmo; no Templo , Ele atraiu o povo para Si, em um lugar; porque num lugar centralizado, a imortalidade de Deus e a Sua permanência eram expressas de uma maneira mais bela; porque num lugar centralizado a Sua beleza, Sua glória, poderia ser também melhor expressa; mas de uma maneira ainda mais significativa, o lugar centralizado era onde a unidade de Israel, como um só povo, podia ser melhor expressa. Eu devia ter mencionado isto antes mas vou mencionar aqui: No lugar centralizado, aquilo que Deus tem feito deve encontrar também a sua melhor expressão. Como um só povo, reunido num só lugar, devemos reconhecer a Deus como aquele que nos criou e que nos redimiu. Lembrem-se, as festas foram colocadas para lembrar as maravilhas que Deus tinha feito (Deuteronômio 5). A festa do Tabernáculo expressava o modo como eles viveram no deserto e como Deus os conduziu lá; a festa das colheitas era a maneira como eles celebravam as boas coisas que Deus lhes concedia. Portanto, a adoração é uma expressão concreta do reconhecimento de que Deus é um Deus generoso, criador e redentor. No Novo Testamento, isso se traduz em louvores a Deus por nos dar o Seu Filho. Lembramos da morte e ressurreição de Jesus Cristo, do Seu Reino, e do Seu Espírito derramado sobre nós. Assim, também devemos dar ações de graças a Ele através das nossas dádivas.

6. O último princípio de que vou tratar é que o culto é para toda a família.

Pais, como chefes do lar, representando o rei; mães, como as rainhas, tão reais quanto o pai; e os filhos, que são os príncipes e as princesas; todos tiveram que estar lá no culto a Deus, no Sinai. Quando Deus fez um pacto com o Seu povo, eles todos tiveram que estar presentes, até mesmo as crianças de peito; e não havia um culto especial para as crianças lá (estou pisando em terreno perigoso?) Talvez possamos falar um pouco sobre isso. No Antigo Testamento, as crianças tinham que ser trazidas ao templo já no oitavo dia para circuncisão, e na idade de 12 anos já deviam ser consideradas adultas, no que diz respeito ao culto; as crianças eram os futuros servos do rei. Deixem-me lembrar também que as crianças deviam participar da páscoa, e elas tinham inclusive o privilégio de perguntar: "O que significa isso"? E os pais tinham que responder. Isso certamente foi na época em que o culto estava centralizado na família, mas o mesmo é verdadeiro quando o culto foi transferido e centralizado no templo. Eu sou pai de oito filhos, e eu e minha esposa temos experimentado o que é educar, em termos de culto, a essas crianças. Eu sei o que estou falando; nós somos avós de vinte e nove meninos e meninas, então podemos falar a partir de uma situação concreta. Estou pronto para falar sobre isso. Eu acredito em culto familiar, em casa e na Igreja.
Concluindo, no Antigo Testamento encontramos cinco períodos; e, permitam-me enfatizar que foi uma época de sombras, símbolos, tipos, e de preparação para a vinda de Cristo. Agora estamos no período do Novo Testamento; o Cristo que foi indicado no Antigo Testamento, como o Servo Sofredor, agora é o Cristo entronizado, Ele trouxe tudo o que estava representado nos sacrifícios. Não há mais necessidade de derramamento de sangue, mais ainda se espera sacrifícios. Nós trazemos os nossos sacrifícios em cânticos, louvores, e dádivas; mas o maior sacrifício que podemos oferecer a Deus somos nós mesmos. Quando Deus chama os presbíteros, os líderes, os ministros, chama para o culto, chama para representá-lo, como aquele que está entronizado, como o cabeça da Igreja. Portanto, é uma questão de obediência que nos reunamos como povo de Deus, é uma questão de honra devida a Cristo. Quando ouvimos e obedecemos àqueles que são os líderes apontados por Deus para o Seu serviço aqui na terra, não é uma questão de escolha, Deus não nos deu escolha. Ele nos chama para o Seu culto através dos Seus representantes divinamente ordenados. E nós, como líderes da Igreja, temos que lembrar da nossa responsabilidade. Devemos cumprir e mostrar a vontade de Deus ao povo. À medida que comparecemos perante o povo, representando a Cristo, Sua Palavra e Seu perdão, devemos lembrar-lhes a vontade de Deus, e isso de forma digna e majestosa para que represente, por sua vez, a dignidade, a majestade e as maravilhas de Deus. No nosso culto hoje, devemos refletir acuradamente sobre o que Deus fez no passado. Não devemos imitar as práticas do Antigo Testamento, não precisamos fazer aquilo que os puritanos fizeram, ou aquilo que os católicos fazem, mas eu estou perfeitamente convencido de que nós temos que obedecer a esses princípios que consideramos acima. Eles não foram revogados.
Vou terminar com uma passagem do Novo Testamento: 1 Timóteo 1: 15-17. "Fiel é a palavra e digna de toda aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas, por esta mesma razão me foi concedida misericórdia, para que em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna. Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém." Nos céus... . Eu não posso adorar tão perfeitamente como eles o podem lá, mas posso saber em que eles estão envolvidos. Em Apocalipse 4:11, somos informados de que, lá nos céus, junto com o nosso Senhor e Salvador, aqueles que estão adorando ao Senhor dizem: "Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as cousas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas."

* Gerard Van Groningen é doutor em Teologia pela Universidade de Melbourne, foi professor de Teologia do Antigo Testamento no Reformed Theological College, Victoria, Austrália; Dordt College; Reformed Theological Seminary; Covenant Theological Seminary e Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Liberdade do Espírito e Danças no Culto

Liberdade do Espírito e Danças no Culto

por

Augustus Nicodemus Lopes

Vou aproveitar um comentário feito no post anterior por uma de nossas leitoras para abordar mais um argumento freqüentemente usado para justificar danças no culto. Na verdade, não somente danças, mas as coisas das mais estranhas têm sido justificadas no culto, como cair no Espírito, trenzinho de Jesus, tremedeiras, salto mortal, usando-se as palavras de Paulo em 2Coríntios 3:17:

Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.

O argumento vai mais ou menos assim: quando o Espírito de Deus está agindo num culto, Ele impele os adoradores a fazerem coisas que aos homens podem parecer estranhas, mas que são coisas do Espírito. Se há um mover do Espírito no culto, as pessoas têm liberdade para fazer o que sentirem vontade, já que estão sendo movidas por Ele, não importa quão estranhas estas coisas possam parecer. E não se deve questionar estas coisas, mesmo sendo diferentes e estranhas. Não há regras, não há limites, somente liberdade quando o Espírito se move no culto.

Assim, um culto onde as coisas ocorrem normalmente, onde as pessoas não saltam, não pulam, não dançam, não tremem e nem caem no chão, este é um culto frio, amarrado, sem vida. O argumento prossegue mais ou menos assim: o Espírito é soberano e livre, Ele se move como o vento, de forma misteriosa. Não devemos questionar o mover do Espírito, quando Ele nos impele a dançar, pular, saltar, cair, tremer, durante o culto. Tudo é válido se o Espírito está presente.

Bom, tem algumas coisas nestes argumentos com as quais concordo. De fato, o Espírito de Deus é soberano. Ele não costuma pedir nossa permissão para fazer as coisas que deseja fazer. Também é fato que Ele está presente quando o povo de Deus se reúne para servir a Deus em verdade. Concordo também que no passado, quando o Espírito de Deus agiu em determinadas situações, a princípio tudo parecia estranho. Por exemplo, quando Ele guiou Pedro a ir à casa do pagão Cornélio (Atos 10 e 11). Pedro deve ter estranhado bastante aquela visão do lençol, mas acabou obedecendo. Ao final, percebeu-se que a estranheza de Pedro se devia ao fato que ele não havia entendido as Escrituras, que os gentios também seriam aceitos na Igreja.

Mas, por outro lado, esse raciocínio tem vários pontos fracos, vulneráveis e indefensáveis. A começar pelo fato de que esta passagem, "onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade" (2Cor 3:17) não tem absolutamente nada a ver com o culto. Paulo disse estas palavras se referindo à leitura do Antigo Testamento. Os judeus não conseguiam enxergar a Cristo no Antigo Testamento quando o liam aos sábados nas sinagogas pois o véu de Moisés estava sobre o coração e a mente deles (veja versículos 14-15). Estavam cegos. Quando porém um deles se convertia ao Senhor Jesus, o véu era retirado. Ele agora podia ler o Antigo Testamento sem o véu, em plena liberdade, livre dos impedimentos legalistas. Seu coração e sua mente agora estavam livres para ver a Cristo onde antes nada percebiam. É desta liberdade que Paulo está falando. É o Senhor, que é o Espírito, que abre os olhos da mente e do coração para que possamos entender as Escrituras.

A passagem, portanto, não tem absolutamente nada a ver com liberdade para fazermos o que sentirmos vontade no culto a Deus, em nome de um mover do Espírito.

E este, aliás, é outro ponto fraco do argumento, pensar que liberdade do Espírito é ausência de normas, regras e princípios. Para alguns, quanto mais estranho, diferente e inusitado, mais espiritual! Mas, não creio que é isto que a Bíblia ensina. Ela nos diz que o fruto do Espírito é domínio próprio (Gálatas 5:22-23). Ela ensina que o Espírito nos dá bom senso, equilíbrio e sabedoria (Isaías 11:2), sim, pois Ele é o Espírito de moderação (2Tim 1:7).

Além do uso errado da passagem, o argumento também parte do pressuposto que o Espírito de Deus age de maneira independente da Palavra que Ele mesmo inspirou e trouxe à existência, que é a Bíblia. O que eu quero dizer é que o Espírito não contradiz o que Ele já nos revelou em sua Palavra. Nela encontramos os elementos e as diretrizes do culto que agrada a Deus.
Liberdade no Espírito não significa liberdade para inventarmos maneiras novas de cultuá-lo. Sem dúvida, temos espaço para contextualizar as circunstâncias do culto, mas não para inventar elementos. Seria uma contradição do Espírito levar seu povo a adorar a Deus de forma contrária à Palavra que Ele mesmo inspirou.

Um culto espiritual é aquele onde a Palavra é pregada com fidelidade, onde os cânticos refletem as verdades da Bíblia e são entoados de coração, onde as orações são feitas em nome de Jesus por aquelas coisas lícitas que a Bíblia nos ensina a pedir, onde a Ceia e o batismo são celebrados de maneira digna. Um culto espiritual combina fervor com entendimento, alegria com solenidade, sentimento com racionalidade. Não vejo qualquer conexão na Bíblia entre o mover do Espírito e piruetas, coreografia, danças, gestos. A verdadeira liberdade do Espírito é aquela liberdade da escravidão da lei, do pecado, da condenação e da culpa. Quem quiser pular de alegria por isto, pule. Mas não me chame de frio, formal, engessado pelo fato de que manifesto a minha alegria simplesmente fechando meus olhos e agradecendo silenciosamente a Deus por ter tido misericórdia deste pecador.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A Centralidade da Pregação da Palavra no Culto

A Centralidade da Pregação da Palavra no Culto

por

Hermisten Maia Pereira da Costa




Introdução:

Dentro da visão Reformada, a Palavra de Deus ocupa o lugar central do Culto, visto que é através dela que Deus nos fala. [1] Deus se dignou em revelar a Si mesmo como Palavra e através da Palavra: “No princípio era o Verbo” (Jo 1.1). “No princípio, não era a música, nem o teatro. Deus identifica seu Filho, que é Deus, com a Palavra. Isso é tremendamente importante.” [2] “Um dos objetivos do sermão, sem dúvida, o mais elevado, deve ser a adoração de Deus e a exaltação do seu nome.” [3]

A pregação não deve ser rejeitada (1Ts 5.19-21); ela deve ser entendida como a Palavra de Deus para nós; recusá-la é o mesmo que rejeitar o Espírito (1Ts 4.8). [4] O mundo por sua vez, deseja ansiosamente ouvir, porém, não a Palavra de Deus (1Jo 4.5). Como há falsos pregadores e falsos mestres, é necessário “provar” o que está sendo proclamado para ver se o seu conteúdo se coaduna com a Palavra de Deus (At 17.11,12/1Jo 4.1-6). No entanto, neste período de grandes e graves transformações, torna-se evidente que os homens, de forma cada vez mais veemente, querem ouvir mais o reflexo de seus desejos e pensamentos, a homologação de suas práticas. Assim sendo, a palavra que deveria ser profética, tende com demasiada freqüência – mesmo assinando o seu obituário –, a se tornar apenas algo apetecível ao “público alvo”, aos seus valores e devaneios, ou, então, nós pregadores, somos tentados a usar de nossa “eloqüência” para compartilhar generalidades da semana, sempre, é claro, com uma alusão bíblica aqui ou ali, para justificar a nossa “pregação”; o fato é que uma geração incrédula, é sempre acintosamente crítica para com a palavra profética. [5]


1. Os Oráculos de Deus:

À Igreja foi confiada a Palavra de Deus, a qual ela deve preservar em seus ensinamentos e prática (Rm 3.2; 1Tm 3.15). Calvino entendia que “a verdade, porém, só é preservada no mundo através do ministério da Igreja. Daí, que peso de responsabilidade repousa sobre os pastores, a quem se tem confiado o encargo de um tesouro tão inestimável!”. [6] Portanto, “um bom pastor deve estar sempre alerta para que seu silêncio não propicie a invasão de doutrinas ímpias e danosas, e ainda propicie aos perversos uma irrefreada oportunidade de difundi-las.” [7] Daí, a fidelidade inarredável à Palavra que deve ter o ministro: “Quão arriscado é afastar-se, mesmo que seja um fio de cabelo da doutrina. (...) Em razão da fragilidade da carne, somos excessivamente inclinados a cair, e o resultado é que Satanás pela instrumentalidade de seus ministros, pronta e facilmente destrói o que os mestres piedosos constroem com grande e penoso labor.” [8] Em outro lugar, comentando Gálatas 5.9, insiste: “Essa cláusula os adverte de quão danosa é a corrupção da doutrina, para que cuidassem de não negligenciá-la (como é costumeiro) como se fosse algo de pouco ou nenhum risco. Satanás entra em ação com astúcia, e obviamente não destrói o evangelho em sua totalidade, senão que macula sua pureza com opiniões falsas e corruptas. Muitos não levam em conta a gravidade do mal, e por isso fazem uma resistência menos radical. (...) Devemos ser muito cautelosos, não permitindo que algo (estranho) seja adicionado à íntegra doutrina do Evangelho.” [9] Escrevendo a Cranmer (jul/1552?) diz: “A sã doutrina certamente jamais prevalecerá, até que as igrejas sejam melhor providas de pastores qualificados que possam desempenhar com seriedade o ofício de pastor.” [10] Por isso, “É quase impossível exagerar o volume de prejuízo causado pela pregação hipócrita, cujo único alvo é a ostentação e o espetáculo vazio.” [11]


2. O Profeta Amós e a Religiosidade Estereotipada:

Recordemos um pouco o caso do Amós. O profeta Amós localiza bem o período de sua mensagem, indicando o reinado de Uzias em Judá e Jeroboão II em Israel. Uzias começou a reinar no ano 27 de Jeroboão (2Rs 15.1). Jeroboão reinou 41 anos (2Rs 14.23). Amós viveu num período de grande riqueza e, ao mesmo tempo imoralidade. Jeroboão conseguira restaurar as fronteiras do Reino do Norte; havia riqueza e abundância no seu reino, resultantes dos despojos de guerra e de negócios vantajosos feitos com Damasco e com principados ao norte e ao nordeste. Contudo, juntamente com a prosperidade – da qual a classe baixa não participou em nada –, havia um materialismo dominante, caracterizando-se pela exploração dos pobres e imoralidade, tentando aplacar a ira de Deus com cerimoniais vazios. [12]

A mensagem de Deus através do profeta é destinada mais especificamente ao Reino Norte, com capital em Samaria, comumente chamado de Israel (Am 7.11/1.1). Ela foi proferida pelo menos dois anos antes da sua redação; agora, após o terremoto predito, ele relembra o que aconteceu e mostra o que ainda está por vir. (Am 1.1; 2.13; 7.10; 8.8/Zc 14.5). O seu Livro foi escrito por volta do ano 760-755 a.C. A sua mensagem é um lamento pela situação do povo (Am 5.1-2). A métrica utilizada em seu registro, própria dos cantos fúnebres, testemunha a tristeza do poeta diante da mensagem que leva ao povo. [13] Amós era um homem simples, do campo, cuidava de bois e colhia sicômoros [14] (Am 1.1/7.14). Vivia em Tecoa, que ficava a 10 km ao sul de Belém, sendo uma região de pastoreio, privilegiada por montanhas com uma altitude de 850 metros.

Deus está profundamente aborrecido com o seu povo eleito; por isso o disciplinaria (Am 3.1-2). Amós descreve de forma vívida a situação de Judá e, principalmente de Israel. O ponto capital da questão estava no fato de que eles rejeitaram a Lei de Deus e não guardaram os Seus Estatutos; portanto não agiam retamente; transformaram a mensagem de Deus em algo amargo, atirando-a ao chão (Am 5.7/6.12): “...rejeitaram a lei do Senhor, e não guardaram os seus estatutos, antes as suas próprias mentiras os enganaram, e após elas andaram seus pais” (Am 2.4). “...Israel não sabe fazer o que é reto, diz o Senhor, e entesoura nos seus castelos a violência e a devastação” (Am 3.10).

Como resultado da desobediência à Lei de Deus, todas as relações estão transtornadas, marcadas pelo domínio do pecado:

a) Vida Familiar: Imoralidade: Pai e filho coabitando com a mesma mulher (Am 2.7).


b) Vida Social, Política e Econômica:

b.1) Juizes corruptos: Am 2.6-7; 5.12.

b.2) Injustiça de todo tipo: Am 5.7; 6.12.

b.3) Opressão: Am 3.9; 4.1/8.4-6; 5.11-12.

b.4) Exploração dos pobres: Am 5.11-12; 8.4-6.

b.5) Insensibilidade para com o sofrimento alheio: Am 4.1; 6.6.


c) Vida Religiosa:

a) As ofertas eram apenas mecânicas; não alteravam em nada o seu comportamento; eles apenas gostavam do ritual: Am 4.4-5.

b) Aborreciam a instrução: Am 5.10.

Aqui, vem o ponto capital: Não queriam ouvir a Palavra de Deus; para tanto procuravam corromper os mensageiros de Deus (Am 2.11-12; 5.10/ 7.14-16.). A Mensagem profética era entendida como conspiração (Am 7.10). O trágico de tudo isso, é que a mensagem que eles não queriam ouvir era justamente a que poderia salvá-los, porque Deus lhes falava através do profeta; no entanto, eles não queriam que este profetizasse: “Certamente o Senhor Deus não fará cousa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas” (Am 3.7). “Aborreceis na porta ao que vos repreende, e abominais o que lhe fala sinceramente” (Am 5.10).

Amós, fiel ao seu chamado, testemunha contra a tentativa do povo em silenciá-lo: “Mas o Senhor me tirou de após o gado, e me disse: Vai e profetiza ao meu povo Israel. Ora, pois, ouve a palavra do Senhor: Tu dizes: Não profetizarás contra Israel, nem falarás contra a casa de Isaque” (Am 7.15-16)(Ver Am 2.12).

Enquanto o povo não ouvia o profeta, alimentava-se de mentiras: (Am 2.4). Deus aponta para a insensibilidade espiritual do povo em se converter a Ele: (Do mesmo modo Ageu 1.9-11):

a) Fome não adiantou: Am 4.6.

b) Seca não adiantou: Am 4.7-8.

c) Praga não adiantou: Am 4.9.

d) Peste não adiantou: Am 4.10.

e) Catástrofe não adiantou: Am 4.11.

Deus diz que puniria o seu povo (Am 3.2,14); o abandonaria (Am 6.8). Ele não era subornável mediante cultos mecânicos que não alteravam em nada o seu comportamento; o povo apenas gostava do ritual (Am 4.4-5 5.21-23; Mq 6.6-8; Os 6.6/1Sm 15.22; Os 8.13).

O ritualismo vazio pode ser ilustrado na vida de Israel. Os povos costumam ter seus lugares sagrados, marcos de grandes acontecimentos ou da existência de grandes personagens. Para lá se dirigem objetivando prestar seu culto ou mesmo buscar inspiração. O povo de Israel também tinha esta prática; o livro de Amós nos fala de três lugares (Am 5.1-6):

a) Betel: Jacó teve uma visão de Deus e conclui dizendo que Deus estava naquele lugar (Gn 28.16). Aqui, Jacó saiu com uma nova perspectiva de vida amparada na promessa de Deus (Gn 28.13-15). Mais tarde, Jacó foi a Betel lembrando-se de que Deus se revelara a ele anteriormente (Gn 35.7) e agora, teve uma nova experiência; Deus lhe falara (Gn 35.15), mudou seu nome; ele já não mais se chamaria Jacó mas Israel (Gn 35.10). – Betel significava a presença de Deus e o Seu poder renovador.

b) Gilgal: Josué erigiu um monumento com doze pedras após atravessar a pé enxuto o rio Jordão. Também ali, os homens que nasceram no deserto foram circuncidados e o povo participou da páscoa (Js 4 e 5) – “Gilgal era o santuário que proclamava a herança e a posse da terra prometida de acordo com a vontade de Deus.” [15]

c) Berseba: Abraão fez aliança com Abimeleque e invocou o nome do Senhor. Abimeleque disse a Abraão: “Deus é contigo em tudo o que fazes” (Gn 21.22) – A Bênção de Deus.

Deus não deseja que o povo procure mecanicamente os lugares de culto, por eles mesmos corrompidos (Am 5.5/4.4), mas que O busque, para que tenham vida (Am 5.6). Buscar a Deus é o oposto a meras peregrinações a lugares sagrados, a santuários como em Betel, Gilgal ou Berseba (Am 3.14; 4.4-5; 8.14); estes santuários juntamente com o povo estavam sob julgamento.

Por causa de seus pecados, Israel seria destruído (Am 3.11-12; 5.3; 6.16), sendo levado cativo (Am 4.2-3; 6.7; 7.11,17). Israel deve se preparar para se encontrar com o Senhor, e prestar contas a Ele (Am 4.12-13). No entanto, a mensagem de Deus permanecia até o último instante conclamando o povo a uma atitude de arrependimento e de busca de Deus. A única solução para Israel estava na proclamação de Amós: “Buscai ao Senhor e vivei” (Am 5.6).

É necessário que não permitamos que uma religiosidade estereotipada caracterize a nossa vida; Deus deseja não que cumpramos simplesmente rituais; Ele quer que O busquemos. Os ritos só têm valor quando realizados conforme a Palavra e com sinceridade. A nossa única chance real de salvação é buscar a Deus.

Como vimos, o povo não queria saber da mensagem profética. No século XIX, Spurgeon, comentando sobre a relevância do sermão na adoração, escreve: “Ouvir corretamente o evangelho é uma das partes mais nobres da adoração ao Altíssimo. É um exercício mental em que, quando corretamente praticado, todas as faculdades do homem espiritual são chamadas à realização de atos de devoção. Ouvir reverentemente a Palavra exercita a nossa humildade, instrui a nossa fé, engolfa-nos em raios de fulgente alegria, inflama-nos de amor, inspira-nos zelo, e nos eleva até o céu.” [16]


3. Fidelidade X Popularidade:

No Livro de Amós vemos exemplificado o desprezo à profecia e, ao mesmo tempo, a fidelidade do profeta. Parece-me, no entanto, correto o comentário de Vincent quando declara que “A demanda gera o suprimento. Os ouvintes convidam e moldam os seus próprios pregadores. Se as pessoas desejam um bezerro para adorar, o ministro que fabrica bezerros logo é encontrado.” [17] É preciso atenção redobrada para não cairmos nesta armadilha já que não é difícil confundir os efeitos de uma mensagem com o conteúdo do que anunciamos: a pregação deve ser avaliada pelo seu conteúdo; não pelos seus supostos resultados. Esse assunto está ligado à vertente relacionada ao crescimento de igreja. Iain Murray está correto ao afirmar: “O crescimento espiritual na graça de Cristo vem em primeiro lugar. Onde esse crescimento é menosprezado em troca da busca de resultados, pode haver sucesso, mas será de pouca duração e, no final, diminuirá a eficácia genuína da Igreja. A dependência de número de membros ou a preocupação com números freqüentemente tem se confirmado como uma armadilha para a igreja.” [18]

A confusão entre conteúdo e resultado é fácil de ser feita porque, como acentua MacArthur: “O pregador que traz a mensagem que mais necessitam ouvir é aquele que eles menos gostam de ouvir.” [19] Portanto, a popularidade pode em muitos casos, ser um atestado da infidelidade do pregador na transmissão da voz profética. Lembremo-nos: “Toda a tarefa do ministro fiel gira em torno da Palavra de Deus – guardá-la, estudá-la e proclamá-la.” [20] e: “Ninguém pode pregar com poder sobrenatural, se não pregar a Palavra de Deus.”[21] Quanto mais confiarmos no poder de Deus operante através da Palavra, menos estaremos dispostos a confiar em nossa suposta capacidade. A nossa oratória pode e certamente não é totalmente adequada; no entanto, a Palavra que pregamos, jamais será ineficaz no seu propósito. Neste sentido, escreveu Chapell: “Quando os pregadores percebem o poder que a Palavra possui, a confiança em seu chamado cresce, da mesma forma que o orgulho em seu desempenho murcha. Não precisamos temer nossa ineficácia quando falamos das verdades que Deus revestiu de poder para a realização dos seus propósitos. Ao mesmo tempo, trabalhar como se nossos talentos fossem os responsáveis pela transformação espiritual, torna-nos semelhantes a um mensageiro que reivindicava mérito por ter posto fim à guerra, por haver ele entregue a declaração escrita de paz. O mensageiro tem uma nobre tarefa a realizar, mas porá em risco sua missão e depreciará o verdadeiro vitorioso se atribuir a si, façanhas pessoais. Mérito, honra e glória com relação aos efeitos da pregação pertencem apenas a Cristo, pois somente a Palavra produz renovação espiritual.” [22]

Lembremo-nos de que o pregador não “compartilha” opiniões nem dá suas “opiniões” sobre o texto bíblico, nem faz uma paráfrase irreverente do texto, antes, ele prega a Palavra. O seu objetivo é expressar o que Deus disse através de seus servos. Pregar é explicar e aplicar a Palavra aos nossos ouvintes. O aval de Deus não é sobre nossas teorias e escolhas, muito menos sobre a “graça” de nossas piadas, mas sobre a Sua Palavra. Portanto, o pregador prega o texto, de onde provém a verdade de Deus para o Seu povo.

No final, quando Cristo retornar, certamente Ele não se interessará pela nossa escola homilética ou, se fomos “progressistas” ou “conservadores” mas sim, se fomos fiéis à Palavra em nossa vida e pregação.

Insistimos: devemos estar sinceramente atentos ao que o Espírito diz à Igreja através da Palavra, a fim de praticar os Seus ensinamentos. E isto é válido tanto para quem ouve como para quem prega...

Por outro lado, aquele que prega deve ter consciência de que o púlpito não é o lugar para se exercitar as opiniões pessoais e subjetivas mas sim, para pregar a Palavra, anunciando todo o desígnio de Deus, sob a iluminação do Espírito. Alexander R. Vinet (1797-1847) definiu bem a pregação, ao dizer ser ela “a explicação da Palavra de Deus, a exposição das verdades cristãs, e a aplicação dessas verdades ao nosso rebanho.” [23] Sem a Palavra, o púlpito torna-se um lugar que no máximo serve como terapia para aliviar as tensões de um auditório cansado e ansioso em busca de alívio para as suas necessidades mais imediatamente percebidas. Ele pode conseguir o alívio do sintoma, mas não a cura para as suas reais necessidades.

Uma outra verdade que precisa ser ressaltada, é que apesar de muitos de nós não sermos “grandes” pregadores [24] ou existirem pregadores infiéis, Deus fala: A Palavra de Deus é mais poderosa do que a nossa incompetência ou a infidelidade de outros. Por isso, há a responsabilidade de ambos os lados: Quem prega, pregue a Palavra; quem ouve, ouça com discernimento a Palavra do Espírito de Deus. Recentemente li Chapell dizendo: “Os esforços pessoais dos maiores pregadores são ainda demasiado fracos e manchados pelo pecado para serem responsáveis pelo destino eterno das pessoas. Por essa razão Deus infunde sua Palavra com poder espiritual. A eficácia da mensagem, mais que qualquer virtude do mensageiro, transforma corações.” [25] À frente: “A glória da pregação é que Deus realiza sua vontade por intermédio dela, mas somos sempre humilhados e ocasionalmente confortados com o conhecimento de que Ele age além das nossas limitações humanas.” [26] Ainda: “Pode ser que você jamais ouça elogios do mundo, ou seja pastor de uma igreja com milhares de membros, mas uma vida de piedade associada a uma clara explanação da graça salvadora e santificadora da Escritura garantem o poder do Espírito para a glória de Deus.” [27]

Devemos ter sempre em mente que a pregação foi o meio deliberadamente escolhido por Deus para transformar pessoas e edificar o Seu povo, preservando a sã doutrina através da Igreja que é o baluarte da verdade. [28]


Conclusão:

A pregação é uma tarefa de ínterim; ela ocorre num locus temporal: entre a realidade histórica do Cristo encarnado e a volta do Cristo glorificado e, é nesta condição que ela se realiza e se desenvolve. [29] A Igreja prega a Palavra cumprindo assim o seu ministério ordenado pelo próprio Deus; para tanto ela se prepara da melhor forma possível, usando de todos os recursos disponíveis que se harmonizem com os princípios bíblicos, recorrendo de modo indispensável ao auxílio do Espírito na concretização de sua missão.


NOTAS:

[1] - Vejam-se: Segunda Confissão Helvética, XXIII, § 5.220; Confissão de Westminster, 21.5; João Calvino, As Institutas, IV.1.5.

[2] - John Piper, O Lugar da Pregação na Adoração: In: Fé para Hoje, São José dos Campos, SP., Fiel, nº 11, 2001, p. 20. “O sermão tem um lugar central no culto reformado.” [Walter L. Liefeld, Exposição do Novo Testamento: do texto ao sermão, São Paulo, Vida Nova, 1985, p. 22].

[3] - Walter L. Liefeld, Exposição do Novo Testamento: do texto ao sermão, São Paulo, Vida Nova, 1985, p. 22.

[4] - Vd. J. Calvino, As Institutas, I.9.3.

[5] - Vd. D. Martyn Lloyd-Jones, Do Temor à Fé, Miami, Vida, 1985, p. 46-47.

[6] - João Calvino, As Pastorais, (1Tm 3.15), p. 97. Ver também: João Calvino, As Pastorais, (1Tm 3.15), p. 97-98; (Tt 1.9); p. 313; João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 4.12), p. 124-125; As Institutas, IV.1.5; IV.3.11; David M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, São Paulo, PES., 1994, p. 167.

[7] - João Calvino, As Pastorais, (Tt 1.11), p. 316.

[8] - J. Calvino, As Pastorais, (Tt 1.11), p. 317. [voltar]

[9] - João Calvino, Gálatas, São Paulo, Paracletos, 1998, (Gl 5.9), p. 158-159. [voltar]

[10] - Calvin to Cranmer, Letter 18. In: John Calvin Collection, The AGES Digital Library, 1998. Do mesmo modo, Letters of John Calvin, Selected from the Bonnet Edition, Carlisle, Pennsylvania, The Banner of Truth Trust, 1980, p. 141-142.
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[11] - João Calvino, As Pastorais, (1Tm 6.3), p. 164.
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[12] - Cf. G. Archer Jr. Merece Confiança o Antigo Testamento, São Paulo, Vida Nova, 1974, p. 358-359.
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[13] - Ver: J.A. Motyer, O Dia do Leão: A Mensagem de Amós, São Paulo, ABU Editora, 1984, p. 100-101. [voltar]

[14] - Sicômoros, “ou figueiras bravas, uma árvore donde se extraía um tipo de seiva, ao serem feitas incisões na época certa, quando então essa seiva formaria um tipo de bola endurecida que os pobres compravam como frutas.” (G. Archer Jr. Merece Confiança o Antigo Testamento, p. 358). [voltar]

[15] - J.A. Motyer, O Dia do Leão: A Mensagem de Amós, p. 100. [voltar]

[16] - Charles H. Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, São Paulo, PES., 1982, Vol. 2, p. 64.
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[17] - Marvin R. Vincent, Word Studies in the New Testament, Peabody, MA., Hendrickson Publishers, [s.d.], Vol. 4, (2Tm 4.3), p. 321. [voltar]

[18] - Iain Murray, A Igreja: Crescimento e Sucesso: In: Fé para Hoje, São José dos Campos, SP., Fiel, nº 6, 2000, p. 27. [voltar]

[19] - John F. MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho, São José dos Campos, SP., Fiel, 1997, p. 35. Packer, faz uma pergunta inquietante: “Costumamos lamentar, hoje em dia, que os ministros não sabem pregar; mas não é igualmente verdadeiro que nossas congregações não sabem ouvir.” (J.I. Packer, Entre os Gigantes de Deus: Uma visão puritana da vida cristã, São José dos Campos, SP., FIEL, 1996, p. 275). [voltar]

[20] - John F. MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho, p. 29. [voltar]

[21] - John F. MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho, p. 30. [voltar]

[22] - Bryan Chapell, Pregação Cristocêntrica, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2002, p. 22.
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[23] - A.R. Vinet, Pastoral Theology: or, The Theory of the Evangelical Ministry, 2ª ed. New York, Ivison, Blakeman, Taylor & Co. 1874, p. 189. [voltar]

[24] - É-nos alentadora a observação de Spurgeon: “O pregador do evangelho pode não ser um bom pregador. Mas o Senhor fala aos pecadores mesmo por meio de pregadores incultos.” (C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo, Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 46). Do mesmo modo, Chapell: “Grandes dons não o tornam grande pregador. A excelência técnica da mensagem pode repousar nas suas habilidades, mas a eficácia espiritual da sua mensagem reside em Deus.” (Bryan Chapell, Pregação Cristocêntrica, p. 25).

[25] - Bryan Chapell, Pregação Cristocêntrica, p. 18. À frente continua: “Pregação que é fiel à Escritura converte, convence e amolda o espírito de homens e mulheres, pois ela apresenta o instrumento da compulsão divina, e não que pregadores tenham em si mesmos qualquer poder transformador.” (Bryan Chapell, Pregação Cristocêntrica, p. 19).

[26] - Bryan Chapell, Pregação Cristocêntrica, p. 25.

[27] - Bryan Chapell, Pregação Cristocêntrica, p. 33.

[28] - MacArthur acentua com veemência em lugares diferentes: “.... Não ousemos menosprezar o principal instrumento de evangelismo: a proclamação direta e cristocêntrica da genuína Palavra de Deus. Aqueles que trocam a Palavra por entretenimento ou artifícios descobrirão que não possuem um meio eficaz de alcançar as pessoas com a verdade de Cristo.” (John F. MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho, p. 117-118). “Os que desejam colocar a dramatização, a música e outros meios mais sutis no lugar da pregação deveriam levar em conta o seguinte: Deus, intencionalmente, escolheu uma mensagem e uma metodologia que a sabedoria deste mundo considera como loucura. O termo grego traduzido por ‘loucura' [1Co 1.21] é mõria, de onde o idioma inglês tira a sua palavra moronic (imbecil). O instrumento que Deus utiliza para realizar a salvação é, literalmente, imbecil aos olhos da sabedoria humana. Mas é a única estratégia de Deus para proclamar a mensagem.” (Ibidem., p. 130).

[29] - Anthony A. Hoekema, observou que: “O período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo é a era missionária por excelência. Este é o tempo da graça, um tempo em que Deus convida e insta com todos os homens para serem salvos.” (A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1989, p. 187).