quarta-feira, 6 de maio de 2015

Os Puritanos e a Assembléia de Westminster


OS PURITANOS: SUA ORIGEM E SUA HISTÓRIA
Por Alderi Souza de Matos


 Introdução

O sentido positivo/negativo original do termo “puritano” e o sentido pejorativo atual (rigidez, moralismo, intolerância).
A imagem distorcida dos puritanos na história. H. L. Mencken: “O puritanismo é o temor persistente de que alguém, em algum lugar, possa ser feliz”.

Ênfase principal: preocupação com a pureza e integridade da igreja, do indivíduo e da sociedade.

Movimento muito influente na Inglaterra; principal tradição religiosa na história dos Estados Unidos.

1. Definições

Movimento em prol da reforma completa da Igreja da Inglaterra que teve início no reinado de Elizabete I (1558) e continuou por mais de um século como uma grande força religiosa na Inglaterra e também nos Estados Unidos. “Uma versão militante da fé reformada” (Dewey D. Wallace, Jr.).

Movimento religioso protestante dos séculos 16 e 17 que buscou “purificar” a Igreja da Inglaterra em linhas mais reformadas. O movimento foi calvinista quanto à teologia e presbiteriano ou congregacional quanto ao governo eclesiástico (Donald K. McKim).

Pessoas preocupadas com a reforma mais plena da Igreja da Inglaterra na época de Elizabete e dos Stuarts em virtude de sua experiência religiosa particular e do seu compromisso com a teologia reformada (I. Breward).

2. Antecedentes (raízes)

O puritanismo é uma mentalidade ou atitude religiosa que começou cedo na história da Inglaterra.

Desde o século 14, surgiu uma tradição de profundo apreço pelas Escrituras e questionamento de dogmas e práticas da igreja medieval com base nas mesmas.

Começou com o “pré-reformador” João Wycliffe e os seus seguidores, os lolardos. Publicação da primeira Bíblia Inglesa completa em 1384, na época do “Grande Cisma”.

Wycliffe afirmou a autoridade suprema das Escrituras, definiu a igreja verdadeira como o conjunto dos eleitos, questionou o papado e a transubstanciação.

O protestantismo inglês sofreu a influência de Lutero e especialmente da teologia reformada continental, a Reforma Suíça de Zurique (Zuínglio, Bullinger) e Genebra (Calvino, Beza).

Começou com o trabalho teológico da primeira geração de reformadores ingleses, influenciados pela Reforma Suíça. Ênfases: colocação da verdade antes da tradição e da autoridade; insistência na liberdade de servir a Deus da maneira que se julgava mais acertada (ver Lloyd-Jones, O puritanismo e suas origens).

William Tyndale (†1536) – compromisso com as Escrituras, ênfase na teologia do pacto. Tradutor da Bíblia - NT (1525); cruelmente perseguido; estrangulado e queimado em Antuérpia, na Bélgica.

John Hooper (†1555) – as Escrituras devem regular a estrutura eclesiástica e o comportamento pessoal.

John Knox (†1572) – reforma completa da igreja e do estado.

3. História

(a) Henrique VIII (1509-1547) – criou a Igreja Anglicana, uma igreja nacional inglesa de orientação nitidamente católica. Em 1539, impôs os Seis Artigos, com severas punições para os transgressores (“o açoite sangrento de seis cordas”). Incluíam a transubstanciação, a comunhão em uma só espécie, o celibato clerical, votos de castidade para leigos, missas particulares, confissão auricular, etc.

Duas reações dos protestantes: conformação – por exemplo, o arcebispo Thomas Cranmer a princípio de opôs, mas depois se submeteu e separou-se da esposa; protesto – Miles Coverdale, John Hooper e outros, que tiveram de fugir do país e foram para a Suíça. Sob a influência continental, começaram a se opor ao cerimonialismo religioso.

(b) Eduardo VI (1547-1553) – nessa época, a influência dos partidários de uma reforma profunda da igreja inglesa se tornou mais forte. John Hooper dispôs-se a aceitar um bispado que lhe foi oferecido, mas não a ser investido no ofício do modo prescrito, com o uso das vestes litúrgicas. Acabou sendo lançado na prisão por algum tempo. Foi o primeiro a expor claramente o argumento acerca das vestes. Não eram coisas indiferentes, e sim resquícios do catolicismo. Começa a surgir uma nítida distinção entre anglicanismo e puritanismo.
(c) Maria I (1553-1558) – tentou restaurar a Igreja Católica na Inglaterra e perseguiu os líderes protestantes. Muitos foram executados – Hugh Latimer (†1555), Nicholas Ridley (†1555) e Thomas Cranmer (†1556) – mártires marianos. Outros fugiram para o continente (Genebra, Zurique, Frankfurt), entre eles John Knox e William Whittingham, o principal responsável pela Bíblia de Genebra. Nesse período surgiram em Londres as primeiras igrejas independentes.

(d) Elizabete I (1558-1603) – inicialmente esperançosos, os puritanos se decepcionaram amargamente. A rainha insistiu em controlar a igreja, manteve os bispos e as cerimônias. A mesma divisão anterior se manifestou entre os líderes imbuídos de convicções protestantes – alguns, como Matthew Parker, Richard Cox, Edmund Grindal e John Jewel, protestaram no início, mas acabaram acomodando-se ao status quo. Aceitaram bispados e outras posições eclesiásticas sob o argumento de que, se recusassem esses ofícios, Elizabete nomearia católicos romanos em lugar deles. Outros, como Thomas Sampson, Miles Coverdale, John Foxe e Lawrence Humphrey, desafiaram a rainha.

- Os puritanos surgem com esse nome no contexto da “Controvérsia das Vestimentas” (1563-1567) – protesto contra vestimentas clericais (propunham o uso de togas genebrinas) e cerimônias como ajoelhar-se à Ceia do Senhor, dias santos e sinal da cruz no batismo. Nas décadas seguintes, intensificaram-se as medidas disciplinares da igreja e do estado contra os puritanos estritos (“não-conformistas”). Cristalizou-se o anglicanismo clássico, cujo principal teórico foi Richard Hooker, com sua obra Leis de Política Eclesiástica (1593). Em 1593 foi aprovado o rigoroso “Ato contra os Puritanos”.

(e) Tiago I (1603-1625) – esse rei havia recebido uma educação calvinista na Escócia, o que encheu de esperanças os puritanos. Eles lhe apresentaram a Petição Milenária, que foi totalmente rejeitada na Conferência de Hampton Court (1604). Alguns puritanos se desligaram inteiramente da Igreja da Inglaterra, entre eles um grupo que foi para a Holanda e depois para a América, fundando em 1620 a Colônia de Plymouth, em Massachusetts.

(f) Carlos I (1625-1649) – esse rei manteve a política de repressão contra os puritanos, o que levou um grupo não-separatista a ir para Massachusetts em 1630. No final do seu reinado, entrou em guerra contra os presbiterianos escoceses e contra os puritanos ingleses. Estes eram maioria no Parlamento e convocaram a Assembléia de Westminster (1643-49), que elaborou os famosos e influentes documentos da fé reformada.

Infelizmente, os puritanos não formavam um movimento coeso. Estavam divididos principalmente no que se refere à forma de governo da igreja. Existiam vários grupos: presbiterianos, congregacionais, episcopais, batistas. Alguns eram separatistas e outros não-separatistas, como os “independentes” (congregacionais moderados). A Guerra Civil terminou com a derrota e execução do rei.

(g) Oliver Cromwell – congregacional, líder das forças parlamentares que derrotaram o rei Carlos I. Tornou-se o “Lorde Protetor” da Inglaterra. Durante o Protetorado ou Comunidade Puritana (1649-1658), a Igreja da Inglaterra foi inicialmente presbiteriana e depois congregacional. Todavia, as rivalidades religiosas levaram ao restabelecimento da monarquia – a Restauração.
(h) Carlos II (1660-1685) - expulsou cerca de 2000 ministros puritanos da Igreja da Inglaterra. A Grande Expulsão (1662) marcou o fim do puritanismo anglicano. Embora perseguidos, sobreviveram como dissidentes (“dissenters”) fora da igreja estatal e eventualmente criaram igrejas batistas, congregacionais e presbiterianas.

(i) Tiago II (1685-1689) – tentou restaurar o catolicismo, mas foi derrotado pelo holandês Guilherme de Orange, esposo de sua filha Maria – a Revolução Gloriosa.

(j) Guilherme e Maria (1689-1702) – mediante um decreto, foi concedida tolerância aos “dissenters” (presbiterianos, congregacionais e batistas), cerca de um décimo da população. A essa altura, os melhores dias do puritanismo já haviam ficado para trás.

O puritanismo americano foi muito dinâmico e influente por pouco mais de um século, desde os primórdios na Nova Inglaterra (1620) até o Grande Despertamento (1740). Alguns nomes notáveis dessa tradição foram John Cotton, William Bradford, John Winthrop, John Eliot, Thomas Hooker, Cotton Mather e Jonathan Edwards.

Herdeiros recentes da tradição puritana: Charles H. Spurgeon, D. M. Lloyd-Jones, J. I. Packer, James M. Boice e outros.

4. O Perfil Puritano

4.1. Terminologia
Não-conformistas: esse termo surgiu na história inglesa quando puritanos e separatistas não quiseram aderir à Igreja da Inglaterra (oficial) desde 1660 até o Ato de Tolerância (1689). Não-conformidade é a atitude de não se submeter a uma igreja oficial.

Separatistas: termo aplicado ao puritano inglês Robert Browne (c.1550-1633) e seus seguidores, que se separaram da Igreja da Inglaterra. Mais tarde foi aplicado aos congregacionais ingleses e outros grupos que formaram suas próprias igrejas.

Não-separatistas: os puritanos anglicanos, aqueles que não queriam separar-se da igreja oficial, mas procuravam reformá-la. Os fundadores de Salem e Boston (1629-1630) estavam nessa categoria.

Independentes: nos séculos 17 e 18, os adeptos da forma de governo congregacional, em contraste com o governo episcopal da igreja estatal inglesa.

Dissidentes (“dissenters”): aqueles que se retiraram da igreja nacional da Inglaterra (anglicana) por motivos de consciência. O termo inclui congregacionais, presbiterianos e batistas.

4.2. Características gerais
Os “não-conformistas”, como também eram chamados, em geral eram ministros com educação universitária, oriundos principalmente de Cambridge, embora também houvesse leigos ardorosos entre eles.

Entendiam que a Igreja Inglesa devia adotar como modelo as igrejas reformadas do continente.

O puritanismo influenciou a tradição reformada no culto, governo eclesiástico, teologia, ética e espiritualidade. Quatro convicções básicas: (1) a salvação pessoal vem inteiramente de Deus; (2) a Bíblia constitui o guia indispensável para a vida; (3) a igreja deve refletir o ensino expresso das Escrituras; (4) a sociedade é um todo unificado.

O sentido original do termo “puritano” apontava para a purificação da igreja, na medida que os puritanos queriam descartar os elementos arquitetônicos, litúrgicos e cerimoniais que consideravam conflitantes com a simplicidade bíblica. Por exemplo, eles objetavam contra o sinal da cruz no batismo e a genuflexão para receber a Santa Ceia.

Ao invés de paramentos elaborados (sobrepeliz), eles preferiam uma toga preta que simbolizava o caráter do ministro como um expositor culto da Bíblia.

Queriam que cada paróquia tivesse um ministro residente capaz de pregar. Para alcançar esse objetivo, promoviam reuniões de ministros para ouvir sermões e receber orientação pastoral (suprimidas por Elizabete).

Sofrendo oposição dos bispos e estando comprometidos com uma eclesiologia que dava ênfase à igreja como uma comunidade pactuada, muitos puritanos rejeitaram o episcopado.

Thomas Cartwright promoveu o presbiterianismo (1570). Robert Browne, mais radical, advogou um sistema congregacional e defendeu a imediata separação da “corrupta” Igreja da Inglaterra (1582). Alguns de seus seguidores “separatistas” foram para a Holanda.

Congregacionais mais moderados, conhecidos como “independentes”, não chegaram a defender a separação. Eles influenciaram os puritanos da Baía de Massachusetts e se tornaram a corrente principal do congregacionalismo inglês.

Outros puritanos, como Richard Baxter (†1691), queriam um “episcopado atenuado” que associava características presbiterianas e episcopais.

Os puritanos não estavam interessados somente na purificação do culto e do governo eclesiástico. Todo o corpo político também precisava de purificação. Apoiando-se em Martin Bucer e João Calvino, eles insistiram na criação de uma sociedade cristã disciplinada. Achavam que uma nação inteira podia fazer uma aliança com Deus para a realização desse ideal. Esperanças milenaristas e o exemplo do Israel bíblico os impeliram nessa direção.
4.3. Experiência religiosa

A Bíblia, interpretada no espírito dos teólogos reformados continentais, era considerada a única fonte legítima para a doutrina, liturgia, governo eclesiástico e espiritualidade pessoal. Incentivavam a leitura doméstica da Bíblia de Genebra (1560), uma edição comentada. Além da pregação expositiva regular aos domingos, havia a instrução dos membros em seus lares durante a semana. Deram grande ênfase à preparação de ministros pregadores (ex: Emmanuel College, em Cambridge).

Os pregadores-teólogos puritanos escreveram com detalhes sobre a maneira pela qual a graça de Deus poderia ser identificada na experiência humana, indo além de religiosidade formal e expressando-se numa transformação interior da morte no pecado para a vida em Cristo, com base na fé. Os diários e autobiografias dos puritanos revelam quão intensa essa luta podia ser e como se tornaram pessoais os grandes temas da teologia reformada.
· Sem negligenciar a obra e o ser de Deus ou os grandes temas da eleição, vocação, justificação, adoção, santificação e glorificação, a ênfase dos teólogos puritanos na experiência religiosa e na piedade prática deu aos seus escritos um teor incomum entre os teólogos reformados de outras partes da Europa. Um bom exemplo disso é O Peregrino (1676), de John Bunyan.

A ênfase prática da teologia puritana levou-a a dar grande atenção à ética pessoal e social em casos de consciência, discussões sobre vocação e o relacionamento entre a família, a igreja e a comunidade no propósito redentor de Deus.

A reforma do culto e da prática religiosa popular, ouvindo e obedecendo a palavra de Deus, bem como a santificação do tempo convergiram no desenvolvimento do sabatarianismo, um dos legados mais duradouros da teologia puritana aplicada.

4.4. Teologia

Segundo William Ames, a teologia “é para nós a suprema e a mais nobre das disciplinas exatas. É um guia e plano-mestre para o nosso fim mais elevado, enviado por Deus de maneira especial, tratando das coisas divinas... Não existe preceito de verdade universal relevante para se viver bem em economia doméstica, moralidade, vida política e legislação que não pertença legitimamente à teologia” (A medula da teologia, 1623).

Os puritanos eram estritos defensores da teologia reformada, que inicialmente tinham em comum com a Igreja da Inglaterra (os Trinta e Nove Artigos ensinavam a doutrina reformada da Ceia do Senhor e afirmavam a predestinação). Depois que muitos anglicanos adotaram uma posição mais arminiana (1620s), os puritanos defenderam vigorosamente o calvinismo devido à sua afirmação intransigente da graça imerecida de Deus.

Alguns puritanos, como William Perkins, William Ames e John Owen, deram importante contribuição para o desenvolvimento da ortodoxia reformada.
Uma contribuição puritana mais específica foi a articulação do aspecto prático e afetivo da religiosidade. Richard Rogers, John Dod e Richard Sibbes foram fontes de um movimento devocional puritano que floresceu especialmente após a Restauração (1660) com grandes autores como Richard Baxter, Joseph Alleine e John Flavel.

Os puritanos escreveram uma enorme literatura sobre a vida espiritual, incluindo sermões, meditações, exposições bíblicas práticas, aforismos de orientação espiritual, biografias e autobiografias.

Essa literatura dava ênfase a temas como a experiência pessoal de conversão, a regeneração pelo Espírito Santo, a união mística da alma com Cristo, a busca de certeza da salvação e o crescimento em santidade de vida.

A maior expressão dessa “teologia afetiva” foi a alegoria de John Bunyan (†1688), O Peregrino, que retratou a vida cristã como peregrinação e luta espiritual.

A maioria dos puritanos estavam firmemente comprometidos com uma igreja nacional, dando forte ênfase à pureza do culto e do governo bíblicos como parte de uma reforma contínua. Uma pequena minoria não via esperança de reforma sem separação da igreja oficial e a criação de uma igreja de santos em relação pactual.

“A fidelidade da teologia puritana à revelação bíblica, sua abrangência, sua integração com outros tipos de conhecimento, sua profundidade pastoral e espiritual, seu êxito em criar uma tradição duradoura de culto, pregação e espiritualidade fazem dela uma tradição de permanente importância no cristianismo de língua inglesa e na tradição reformada mais ampla” (I. Breward).

4.5. Contribuições dos puritanos

Ver Leland Ryken, Santos no Mundo:
- Vida teocêntrica - Toda a vida pertence a Deus
- Vendo Deus nos lugares comuns
- A importância da vida
- Vivendo num espírito de expectativa
- O impulso prático do puritanismo
- A vida cristã equilibrada
- A simplicidade que dignifica

4.6. Puritanos notáveis

William Perkins
(1558-1602) – sua teologia foi o primeiro grande exemplo de uma síntese da teologia reformada aplicada à transformação da sociedade, igreja e indivíduos da Inglaterra elizabetana. Em sua obra mais famosa, Armilla Aurea (A corrente de ouro – 1590), ele expôs a tradição reformada em torno do tema da teologia como “a arte de viver bem”. Deu ênfase à majestade da ordem de Deus e sua implicações sociais e pessoais. Foi o primeiro teólogo elizabetano com uma reputação internacional. Também destacou-se extraordinariamente como pregador.

William Ames (1576-1633) – discípulo mais destacado de Perkins e prolífico escritor. Sua críticas contra a Igreja da Inglaterra causaram o seu exílio na Holanda (onde foi professor) e a proibição dos seus livros na Inglaterra. Suas obras mais famosas são: A Medula da Teologia (1623) e Casos de Consciência (1630). Morreu poucos antes de uma planejada mudança para Massachusetts, onde sua influência, bem como na Holanda, persistiu até o século 18. Sua teologia prática acentuou como cada aspecto da vida devia ser dedicado à glória de Deus.

Richard Sibbes (1577-1635) – foi estudante e professor em Cambridge. Exemplificou a síntese entre profundidade bíblica e sensibilidade pastoral que caracterizou a teologia puritana no que tinha de melhor. Seus escritos são práticos antes que sistemáticos e mostram claramente porque as ênfases puritanas foram assimiladas tão plenamente pelos leigos. Escritos seus como A Porção do Cristão e A Exaltação de Cristo Comprada por sua Humilhação revelam não só uma rica soteriologia, mas profundas percepções sobre a criação e a encarnação.

Thomas Goodwin (1600-1680) – foi influenciado por Sibbes e outros. Estava destinado a uma promissora carreira eclesiástica, mas abriu mão da mesma ao ser convencido por John Cotton (1584-1652) da legitimidade da independência. Depois de algum tempo na Holanda, desempenhou um papel importante na Assembléia de Westminster. Teve atuação destacada no regime de Cromwell e foi presidente do Magdalen College, em Oxford. Buscou unir independentes e presbiterianos em Cristo, o Pacificador Universal (1651). Seu profundo encontro pessoal com Cristo permeou todos os seus escritos.

Richard Baxter (1615-1691) – foi ordenado em 1638 e dois anos depois rejeitou o episcopalismo. De 1641 a 1660 foi ministro de uma paróquia em Kidderminster. Após a guerra civil, apoiou a Restauração e tornou-se capelão de Carlos II. Excluído da Igreja da Inglaterra após o Ato de Uniformidade (1662), continuou a pregar e foi encarcerado em 1685 e 1686. Tomou parte na deposição de Tiago II e deu as boas-vindas ao Ato de Tolerância de Guilherme e Maria. Suas obras incluem O Repouso Eterno dos Santos (1650) e O Pastor Reformado (1656).

John Owen (1616-1683) – ao lado de Baxter, o grande pensador sistemático da tradição teológica puritana. Educado em Oxford, enfrentou uma longa luta espiritual em busca da certeza de salvação, que terminou por volta de 1642. Dedicou seus formidáveis dotes intelectuais à causa parlamentar. Inicialmente presbiteriano, converteu-se à posição independente através da leitura de John Cotton. Fez uma vigorosa exposição do calvinismo clássico em Uma Exibição do Arminianismo (1643). Em A Morte da Morte na Morte de Cristo (1647) fez uma brilhante apresentação da doutrina da expiação limitada. Até o fim da vida trabalhou por uma igreja nacional mais abrangente e pela reconciliação dos dissidentes rivais.

John Bunyan (1628-1688) – após lutar na guerra civil, em 1653 filiou-se a uma igreja independente em Bedford. Um ou dois anos depois, começou a pregar com boa aceitação. Foi aprisionado de modo intermitente entre 1660 e 1672, o que lhe permitiu escrever sua obra-prima, O Progresso do Peregrino (1678), e outros escritos. Após 1672, dedicou-se à pregação e ao evangelismo em sua região. Outras obras famosas de sua lavra são A Guerra Santa (1682) e Graça Abundante para o Principal dos Pecadores (1666).

Fonte: http://www.mackenzie.br/7058.html


quinta-feira, 22 de setembro de 2011


PRINCÍPIOS PARA UMA ADORAÇÃO BÍBLICA
Texto extraido do artigo "As influências do culto do Antigo Testamento na liturgia" de Gerard Van Groningen*.



1. Adoração.

O culto deve ser centralizado em Deus. Isso não foi mudado no Novo Testamento. A adoração deve ser prestada a Deus, Ele reivindica e espera isso de Seu povo. Cultuar, portanto, é um ato de obediência, é trabalhar para Deus, é serviço. Essa é a razão pela qual podemos falar do serviço de culto, e não da reunião de culto; a menos que você esteja enfatizando o encontro do povo com Deus. Adorar a Deus por causa de Deus significa que honramos o Seu caráter. Ele é espiritual, e por isso Jesus disse que devemos adorá-Lo em espírito. Também por isso a ordem para não fazer ídolos ou qualquer representação física de Deus. Isaías ficou impressionado quando estava no templo e viu a Deus, pois Deus é Santo, separado do que é material, puro; e, como espiritual que é, Ele não está limitado a experiências humanas. As experiências não podem determinar ou governar o tipo de liturgia. Se limitarmos o culto às nossas idéias, estaremos limitando o Deus infinito. Na medida em que viajo por diferentes países do mundo, tenho sofrido pela falta do entendimento do que é a santidade de Deus, e pela falta do verdadeiro culto a Ele. Querem trazer Deus ao nível deles, ao invés de elevarem-se ao nível santo de Deus. Deus não é apenas santo, Ele é também majestoso. Os Salmo 93 diz que Ele está revestido de majestade, Deus é glorioso, é sublime, é lindo. Devemos adorá-Lo no Seu esplendor e na Sua beleza. Se mantivermos a nossa adoração nesse contexto próprio de beleza, majestade, e sublimidade, adoraremos a Deus da forma como Ele deve ser adorado.
O Deus do Antigo e do Novo Testamento é um Deus de amor, bondade, compaixão, e misericórdia. Mas esse Deus compassivo e misericordioso é, ao mesmo tempo, o Governador, o Soberano de todas as coisas. Todos os povos digam: Deus reina! Mas os pregadores, os sacerdotes, devem dizer isso primeiro, conforme Isaías. Na presença do Rei, no Palácio do Rei, os súditos nada são e devem portar-se com humildade e com disposição para servi-Lo. Vocês podem imaginar as pessoas indo ao palácio batendo palma "- Por que você está batendo palma?" "-porque eu gosto." Não, na presença do Altíssimo a nossa atitude não deve ser baseada naquilo que gostamos, mas sim naquilo que Ele requer que façamos. Afinal, quem está sendo cultuado, você ou Deus? Sinto muito se vocês gostam de bater palmas, isso é tão vulgar, diminui a beleza, e o esplendor da glória de Deus. Se o culto é centralizado em Deus, não apenas devemos honrar o caráter de Deus, devemos honrar também a vontade de Deus. Deus tem falado, e nada deve tomar o lugar da Palavra de Deus que está prescrita para nossa adoração. Eu quero repetir: Deus estabeleceu o tempo e o modo do culto, e isso é uma questão de obediência. É da vontade dEle que confessemos os nossos pecados e que compareçamos à Sua presença com um coração quebrantado, os sacrifícios do Antigo Testamento falam disso. Ele nos conclama a relembrar o que éramos e o que hoje somos como pessoas redimidas.

2. A postura do povo na adoração.

Somos portadores da imagem de Deus, e Ele não se esquece disso. Podemos pensar, sentir, falar e cantar; somos mais do que seres materiais físicos, somos espirituais; e é no culto que ocorre o encontro do nosso ser espiritual e Deus.

3. O líder.

No Antigo Testamento o culto devia ser conduzido diretamente por líderes indicados para esse fim (senão leiam de Êxodo 25 a Levítico 10; e Oséias). Os sacerdotes são condenados por não dirigir o povo, e ainda por serem dirigidos pelo povo. O povo de Deus no Antigo Testamento sempre precisou de líderes, o sacerdote tinha que conduzir o povo naqueles festivais, na expiação; então havia o sumo-sacerdote, o sacerdote, e os levitas, cada um com tarefas determinadas, de acordo com a administração superior do sumo-sacerdote. O Antigo Testamento mostra a necessidade da liderança, e estes sacerdotes tinham que se apresentar, conforme era prescrito, com roupas puras e brancas. Se os seus mantos tivessem uma mancha, eles estariam desqualificados para dirigir o povo no culto. Eles tinham que ter os adornos perfeitos. Deviam ser totalmente consagrados, receber um sangue purificador nas pontas dos dedos das mãos e dos pés, e seguir as prescrições de como o culto deveria ser conduzido. Aliás, só havia um modo de conduzir um culto aceitável, o modo prescrito por Deus. Só assim Ele aceitava os sacrifícios do povo através dos sacerdotes. Eles tinham até mesmo que tomar cuidado quanto ao modo como subiam os degraus das escadas que conduziam ao altar, as suas roupas teriam que ser de tal forma que cobrissem todo o seu corpo em todo o tempo. Estou mencionando esses detalhes porque eles estão lá. Na preparação para o culto, eles tinham que privar-se de contaminação com corpos, com cadáveres, com pessoas doentes e de qualquer relacionamento íntimo com a esposa. Em Levíticos, lemos que quando não houvesse uma obediência estrita a essas prescrições eles seriam mortos. Todos os líderes nesta posição deviam se conscientizar desse caráter mediatório da sua função, eles representavam a Deus perante o povo, eles tinham estado na presença de Deus, eles tinham que refletir a santidade, a majestade, e a beleza de Deus; mas eles também compareciam lá representando o povo, eles falavam a Deus em favor do povo. Deus era o Rei; o povo, os servos; e os sacerdotes, os mediadores. Mas não eram mediadores como reis, e sim como alguém do povo que apontado por Deus para representar o povo perante Ele. Eles tinham que elevar o povo até o padrão de Deus, e não trazer Deus aos padrões do povo. Essa era a prescrição do Antigo Testamento.
Às vezes ouço dizer que não estamos na era do Antigo Testamento. Contudo, também no Novo Testamento podemos ler a respeito de pessoas que foram indicadas para liderar, e foram qualificadas por Deus para esse trabalho. O papel do líder não foi renegado no Novo Testamento.

4. A adoração deve expressar a relação pactual estabelecida por Deus entre Ele e o Seu povo.

Ele é o Senhor Soberano cujo amor tem sido demonstrado em atos e palavras. Mas Ele é o Senhor e nós, os servos. Nessa relação, devemos nos tornar a cada dia mais semelhantes a Ele. Eu ouço dizer que, no casamento perfeito, a esposa se torna mais e mais semelhante ao marido, mas isso é um pouco bilateral, porque o marido também deve aprender com a esposa. Agora, o que me conforta é que Deus não Se torna semelhante a nós, mas Ele nos compreende, e quando não fazemos exatamente o que Ele quer, Ele ainda é compassivo e continua a perguntar: "você me ama?" Todos os que O amam fazem a Sua vontade.

5. O quinto princípio da adoração é que há um julgamento pelo pecado e, por isso, o sacrifício deve ser representado.

O pecado tem que ser coberto, a expiação, a propiciação, foi feita por Cristo, em nosso favor. Os sacrifícios do Antigo Testamento apontavam para aquilo que Cristo iria fazer. No Antigo Testamento não havia culto, e nem adoração, sem sacrifícios; não havia culto sem altar. Para nós, não há culto sem o significado da cruz, não há culto sem Jesus Cristo, que foi imolado e agora reina. Israel tinha que repetidamente ouvir as maldições do pacto sobre aqueles que o violavam; ouvia as bênçãos, mas tinha que ouvir as maldições também, para lembrar-se de que havia um caminho da vida mas que havia também um caminho da morte.
Além disso, a adoração devia também incluir ofertas, e os sacrifícios deviam expressar gratidão, devoção, desejo de comunhão e meditação, prontidão, e voluntariedade para compartilhar coisas materiais com os sacerdotes, levitas, os pobres, e as viúvas. Não havia lugar para a mesquinhez no culto.
No Sinai, Deus trouxe o povo a um lugar; no Tabernáculo, Ele trouxe o povo para Si mesmo; no Templo , Ele atraiu o povo para Si, em um lugar; porque num lugar centralizado, a imortalidade de Deus e a Sua permanência eram expressas de uma maneira mais bela; porque num lugar centralizado a Sua beleza, Sua glória, poderia ser também melhor expressa; mas de uma maneira ainda mais significativa, o lugar centralizado era onde a unidade de Israel, como um só povo, podia ser melhor expressa. Eu devia ter mencionado isto antes mas vou mencionar aqui: No lugar centralizado, aquilo que Deus tem feito deve encontrar também a sua melhor expressão. Como um só povo, reunido num só lugar, devemos reconhecer a Deus como aquele que nos criou e que nos redimiu. Lembrem-se, as festas foram colocadas para lembrar as maravilhas que Deus tinha feito (Deuteronômio 5). A festa do Tabernáculo expressava o modo como eles viveram no deserto e como Deus os conduziu lá; a festa das colheitas era a maneira como eles celebravam as boas coisas que Deus lhes concedia. Portanto, a adoração é uma expressão concreta do reconhecimento de que Deus é um Deus generoso, criador e redentor. No Novo Testamento, isso se traduz em louvores a Deus por nos dar o Seu Filho. Lembramos da morte e ressurreição de Jesus Cristo, do Seu Reino, e do Seu Espírito derramado sobre nós. Assim, também devemos dar ações de graças a Ele através das nossas dádivas.

6. O último princípio de que vou tratar é que o culto é para toda a família.

Pais, como chefes do lar, representando o rei; mães, como as rainhas, tão reais quanto o pai; e os filhos, que são os príncipes e as princesas; todos tiveram que estar lá no culto a Deus, no Sinai. Quando Deus fez um pacto com o Seu povo, eles todos tiveram que estar presentes, até mesmo as crianças de peito; e não havia um culto especial para as crianças lá (estou pisando em terreno perigoso?) Talvez possamos falar um pouco sobre isso. No Antigo Testamento, as crianças tinham que ser trazidas ao templo já no oitavo dia para circuncisão, e na idade de 12 anos já deviam ser consideradas adultas, no que diz respeito ao culto; as crianças eram os futuros servos do rei. Deixem-me lembrar também que as crianças deviam participar da páscoa, e elas tinham inclusive o privilégio de perguntar: "O que significa isso"? E os pais tinham que responder. Isso certamente foi na época em que o culto estava centralizado na família, mas o mesmo é verdadeiro quando o culto foi transferido e centralizado no templo. Eu sou pai de oito filhos, e eu e minha esposa temos experimentado o que é educar, em termos de culto, a essas crianças. Eu sei o que estou falando; nós somos avós de vinte e nove meninos e meninas, então podemos falar a partir de uma situação concreta. Estou pronto para falar sobre isso. Eu acredito em culto familiar, em casa e na Igreja.
Concluindo, no Antigo Testamento encontramos cinco períodos; e, permitam-me enfatizar que foi uma época de sombras, símbolos, tipos, e de preparação para a vinda de Cristo. Agora estamos no período do Novo Testamento; o Cristo que foi indicado no Antigo Testamento, como o Servo Sofredor, agora é o Cristo entronizado, Ele trouxe tudo o que estava representado nos sacrifícios. Não há mais necessidade de derramamento de sangue, mais ainda se espera sacrifícios. Nós trazemos os nossos sacrifícios em cânticos, louvores, e dádivas; mas o maior sacrifício que podemos oferecer a Deus somos nós mesmos. Quando Deus chama os presbíteros, os líderes, os ministros, chama para o culto, chama para representá-lo, como aquele que está entronizado, como o cabeça da Igreja. Portanto, é uma questão de obediência que nos reunamos como povo de Deus, é uma questão de honra devida a Cristo. Quando ouvimos e obedecemos àqueles que são os líderes apontados por Deus para o Seu serviço aqui na terra, não é uma questão de escolha, Deus não nos deu escolha. Ele nos chama para o Seu culto através dos Seus representantes divinamente ordenados. E nós, como líderes da Igreja, temos que lembrar da nossa responsabilidade. Devemos cumprir e mostrar a vontade de Deus ao povo. À medida que comparecemos perante o povo, representando a Cristo, Sua Palavra e Seu perdão, devemos lembrar-lhes a vontade de Deus, e isso de forma digna e majestosa para que represente, por sua vez, a dignidade, a majestade e as maravilhas de Deus. No nosso culto hoje, devemos refletir acuradamente sobre o que Deus fez no passado. Não devemos imitar as práticas do Antigo Testamento, não precisamos fazer aquilo que os puritanos fizeram, ou aquilo que os católicos fazem, mas eu estou perfeitamente convencido de que nós temos que obedecer a esses princípios que consideramos acima. Eles não foram revogados.
Vou terminar com uma passagem do Novo Testamento: 1 Timóteo 1: 15-17. "Fiel é a palavra e digna de toda aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas, por esta mesma razão me foi concedida misericórdia, para que em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna. Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém." Nos céus... . Eu não posso adorar tão perfeitamente como eles o podem lá, mas posso saber em que eles estão envolvidos. Em Apocalipse 4:11, somos informados de que, lá nos céus, junto com o nosso Senhor e Salvador, aqueles que estão adorando ao Senhor dizem: "Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as cousas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas."

* Gerard Van Groningen é doutor em Teologia pela Universidade de Melbourne, foi professor de Teologia do Antigo Testamento no Reformed Theological College, Victoria, Austrália; Dordt College; Reformed Theological Seminary; Covenant Theological Seminary e Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper.